O encontro com o missionário Kang Myeong-gwan e a morte de minha mãe
Mais importante do que como se morre, é como se vive
Resumo
Ao encontrar um missionário que atuava na Amazônia em meu consultório,
pude ver como o peso da vida fica gravado no corpo.
Esse encontro me fez recordar a morte de minha mãe
e refletir sobre o que realmente importa: não como morremos, mas como vivemos.
Uma pessoa encontrada no consultório
Era por volta de 2013, talvez 2014.
Um senhor de barba cheia, com aparência simpática, entrou no consultório.
Sorria bastante e tentava aliviar o ambiente com piadas de tio.
Ele parecia se divertir, mas, enquanto o atendia, eu começava a estranhar.
Ele reclamava de desconforto no estômago e no pescoço.
Ao examiná-lo, percebi uma hérnia cervical.
Os dois joelhos doíam há muito tempo ao redor da patela,
a visão não estava boa, e havia dores na lombar, nos ombros e nos cotovelos…
Não era um ou dois pontos: o corpo inteiro estava desgastado.
“Que tipo de vida essa pessoa terá levado para chegar a esse ponto?”
Meu olhar sobre a missão na Amazônia
Ao perguntar sobre sua profissão, ele respondeu que era missionário na Amazônia.
Só então aquele estado físico começou a fazer sentido.
Por já ter visto muitos missionários atuando na região amazônica,
aprendi a não avaliar alguém positivamente apenas por dizer que “faz missão”.
Vi pessoas que entraram e desistiram pouco tempo depois,
e, infelizmente, também casos de quem se aproximou por interesses ligados ao sistema ou à realidade local.
Como se sabe, o Brasil é tradicionalmente um país católico,
e pessoas ligadas à religião costumam receber certa tolerância social e institucional.
Entre os vários caminhos para entrada legal e obtenção de residência permanente,
a via religiosa sempre foi considerada relativamente acessível.
Pastores e missionários, por exemplo,
muitas vezes conseguiam entrar no país com cartas-convite de igrejas,
e esse processo não raramente se desdobrava em residência permanente.
Por um período, a missão na Amazônia acabou sendo um espaço onde
fé, vocação e objetivos práticos se misturavam.
Com o acúmulo dessas situações, hoje o acesso às áreas indígenas da Amazônia
exige autorizações rigorosas e diversas restrições.
Isso mostra que a Amazônia
não é um lugar romântico nem um espaço onde qualquer um pode simplesmente entrar.
A Amazônia como lugar de vida
Sem eletricidade, escrevendo agachado,
vivendo por anos em condições precárias de higiene,
os problemas começaram a aparecer: joelhos, coluna, olhos, estômago, audição…
Eram marcas claras de uma vida vivida com o próprio corpo.
Ele fazia parte da organização missionária Wycliffe Bible Translators,
com sede nos Estados Unidos, e trabalhava com uma das muitas etnias indígenas da Amazônia.
Vivia em uma ilha onde habitava o povo Banawá,
dedicando-se à tradução da Bíblia para a língua deles.
Após passar por Manaus e viajar cerca de duas horas em avião de pequeno porte,
chegava-se a uma ilha isolada, com cerca de 200 habitantes.
Ele permanecia ali por meses, escrevendo e traduzindo textos,
depois retornava ao centro para organizar o material,
e novamente voltava à ilha.
Em uma ilha onde faltava comida, às vezes fazia apenas uma ou duas refeições por dia.
Quando vinha a São Paulo, onde tudo parecia apetitoso,
acabava comendo demais e passando mal.
Seu corpo era, como eu dizia, um verdadeiro “hospital ambulante”.
O trabalho de traduzir a Bíblia para a língua do povo Banawá não é algo que se conclua dentro do tempo de uma única pessoa. Na Amazônia, não são raros os casos em que um missionário falece antes de concluir a tradução, e o trabalho é continuado por sua esposa ou por seus filhos. É, literalmente, uma missão que atravessa gerações.
No caso do missionário Kang Myeong-gwan, após muitos anos de dedicação, o trabalho de tradução para o povo Banawá foi finalmente concluído. Essa longa jornada tornou-se um marco, uma missão cumprida e também um registro de vida.
Mesmo após encerrar esse trabalho, sua caminhada não parou. Atualmente, ele vive na República Dominicana, onde passou a se dedicar a um novo trabalho junto às crianças. A forma da missão mudou, mas a direção de sua vida — permanecer ao lado das pessoas — continua a mesma.
A morte de minha mãe e a pergunta que ficou
Depois de atendê-lo uma ou duas vezes por ano e nos aproximarmos,
em um certo dia decidi fazer uma pergunta que carregava havia muito tempo.
Na madrugada de 5 de janeiro de 2009,
minha mãe foi morta a tiros por um assaltante que entrou em nossa casa.
O medo constante da insegurança no Brasil
acabou se tornando realidade também para nossa família.
Depois disso, passei cerca de seis meses refletindo.
Voltar para os Estados Unidos, onde a segurança era maior?
Ou permanecer nesta terra?
Eu tinha o green card americano, o que tornava a decisão ainda mais pesada.
No fim, decidi ficar no Brasil.
Senti que, apesar do medo, ainda havia algo que eu precisava fazer aqui.
Mesmo assim, organizar emocionalmente a morte de minha mãe
foi algo que continuou comigo por muito tempo.
“Minha mãe morreu dessa forma…
qual é a sua opinião, pastor?”
Ele ficou em silêncio por um momento e respondeu calmamente.
Disse que ele próprio vivia em uma ilha isolada da Amazônia,
exposto a onças, cobras, dengue, febre amarela e outras doenças,
sem saber quando ou de que maneira poderia morrer.
E acrescentou apenas que a forma como se morre não é o mais importante.
Foi uma frase curta,
mas o que veio depois disso ficou totalmente por minha conta.
Uma frase que me fez olhar a vida novamente
Enquanto refletia sobre aquelas palavras no caminho de volta,
uma pergunta que eu carregava havia anos desapareceu,
e outra ideia passou a ocupar seu lugar.
Mais importante do que como se morre,
é como se viveu.
Este texto é um registro do momento em que
voltei a confirmar essa verdade no lugar onde vivo.
No próximo texto,
pretendo contar histórias de amigos que encontrei no Brasil.

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